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Acervos linguísticos e a pesquisa historiográfica

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    HGEL
  • há 8 horas
  • 4 min de leitura

Por Emily G. M. Ferreira e Fábio Albert Mesquita


Texto baseado no ensaio teórico "Museus e acervos linguísticos: entre a memória e a experiência" (Chapanski; Polachini; Farias; Ferreira; Mesquita; Vieira; Corrêa; Carmo; Araújo; Coelho, 2026).



Texto de referência. Divulgação: Cadernos de Linguística, v. 7, n. 5, 2026.
Texto de referência. Divulgação: Cadernos de Linguística, v. 7, n. 5, 2026.

Quando pensamos em um acervo linguístico, é comum imaginarmos uma coleção de documentos, livros ou bancos de dados, mas sua realidade transcende esse papel instrumental. Os museus e acervos linguísticos podem ser entendidos como arquivos, produtos dinâmicos do conhecimento e espaços ativos de produção e exercício dos saberes, vinculados a contextos históricos, institucionais e socioculturais específicos. Eles vivem em uma tensão constante entre olhar para o passado para entender como a língua foi descrita e usada e guardar hoje aquilo que o futuro deve lembrar.


Os museus e acervos linguísticos possuem um valor historiográfico claro, pois são construtos do pensamento linguístico de um grupo e seu tempo, destinados a participar, de formas diversas e sob propósitos variados, da experiência coletiva de reflexão sobre a linguagem. Nesse contexto, mais do que apenas consultar arquivos prontos, cabe à historiografia da linguística a tarefa de produzi-los, garantindo as bases materiais para o desenvolvimento da ciência.


No cenário brasileiro contemporâneo, existem diversas iniciativas orientadas para a construção desses tipos de arquivos. Uma delas é o Catálogo de Gramáticas da Língua Portuguesa, desenvolvido pelo HGEL (UFPB/CNPq), que se define como um acervo documental abrangente organizado para apoiar o trabalho de pesquisadores, professores e estudantes interessados na história da gramaticografia do português.


Na primeira etapa de organização do catálogo, realizamos o levantamento e o mapeamento de gramáticas de língua portuguesa listadas em diferentes investigações historiográficas e, de forma esparsa, em acervos digitais, como a Biblioteca Nacional Digital de Portugal, a Biblioteca Nacional Digital do Brasil e o Acervo Digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP. Sendo um dos principais objetivos do catálogo facilitar o acesso às gramáticas, também procuramos por versões de acesso aberto disponíveis para download ou, pelo menos, para consulta em repositórios acadêmicos, bibliotecas digitais, plataformas institucionais e sites de compartilhamento de documentos, vinculados a instituições públicas e privadas.

 

Atualmente, o catálogo reúne 73 gramáticas publicadas entre os séculos 16 e 19, com um total de 116 edições e reedições. Esse inventário está em construção contínua, ou seja, esse volume de obras tende a aumentar, à medida que novas digitalizações se tornem acessíveis ou sejam localizadas em outros acervos digitais.


O catálogo está dividido em séculos, e as gramáticas são listadas considerando-se o ano de publicação da primeira edição, que situa a obra no contexto histórico e intelectual em que foi originalmente produzida. As reedições, que podem se limitar ao mesmo período ou se estender ao longo dos séculos seguintes, são reunidas na mesma entrada, porque, embora atualizem aspectos materiais das gramáticas, não desfazem o vínculo da obra com o momento em que surgiu. Cada século conta com um buscador suspenso que permite ao usuário filtrar as gramáticas por autoria, nacionalidade dos autores e década de publicação de sua primeira edição. Com isso, pretendemos ampliar os recursos de consulta, permitindo selecionar a produção de um autor específico ou conjuntos de gramáticas vinculados a determinadas tradições nacionais (brasileira, portuguesa, entre outras) e períodos, abrindo espaço para estudos comparativos, sincrônicos e diacrônicos.


Com a manutenção permanente e a ampliação das obras disponibilizadas no Catálogo de Gramáticas da Língua Portuguesa, esperamos contribuir com o enfrentamento de dificuldades de acesso a fontes de interesse investigativo da historiografia da linguística. Além disso, o catálogo reúne obras produzidas por diversos agentes e publicadas em diferentes períodos e lugares, sem focalizar um conjunto de gramáticas tidas como mais prestigiadas no cânone de língua portuguesa (em geral produzidas por homens atuantes em instituições tradicionais dos grandes centros geopolíticos do Brasil e de Portugal).


O catálogo está vinculado ao projeto de pesquisa “Gramaticografia brasileira de língua portuguesa (1801-1830): constituição de acervo e análise da macro-organização sintática” (PIBIC/CNPq 2025-2026), coordenado pelo Prof. Dr. Francisco Eduardo Vieira (UFPB/HGEL/PQ-C 2025-2028), e conta com a participação do Prof. Dr. Anderson Rany (UEPB/HGEL) e de dois estudantes de doutorado e um de iniciação científica da UFPB.


Além do Catálogo de Gramáticas da Língua Portuguesa do HGEL, o artigo Chapanski et al. (2026) apresenta outras cinco iniciativas atualmente desenvolvidas no Brasil:

 

  • Centro de Documentação em Historiografia Linguística (USP);

  • Dossiê de Gramáticas e Dicionários do Português (Fundação Biblioteca Nacional e Fundação Casa de Rui Barbosa);

  • Web-Museu da Gramática (UFU);

  • Museu da Língua Portuguesa;

  • Museu de Itinerários Linguísticos (Instituto Serendipe).

 

Com diferentes focos e estratégias, essas iniciativas também têm impacto significativo na ciência e na pesquisa, ao garantir a preservação, a sistematização e o acesso aberto a fontes linguísticas e metalinguísticas fundamentais, criando condições para novas agendas investigativas na historiografia, na gramaticografia e nos estudos da linguagem em geral.



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