Os efeitos linguísticos da expansão colonial portuguesa
- HGEL

- há 2 dias
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Por Francisco Eduardo Vieira e Carlos Alberto Faraco
Texto baseado no capítulo 17, “Portuguese Expansion” (Faraco; Vieira, 2026), do livro The Oxford Handbook of the Portuguese Language, organizado por Ana M. Carvalho e Livia Oushiro (Oxford University Press, 2026).

Para entender como o português se tornou uma língua internacional, é necessário passar em revista a história da expansão colonial de Portugal.
A expansão colonial de Portugal se iniciou em 1415, com a conquista de Ceuta, no Norte da África, e se fechou com a chegada ao Japão em 1543. Esse processo expansionista e seus desdobramentos conheceram três momentos diferentes.
Num primeiro momento, o centro das ações extraeuropeias de Portugal era o comércio marítimo da Ásia. Esse domínio foi perdido para os holandeses nas primeiras décadas do século 17.
Portugal se concentrou, então, no Atlântico Sul, ocupando e explorando economicamente o Brasil, o que demandou o incremento do tráfico de escravizados africanos, atividade que perdurou por quase 300 anos e deslocou para o território brasileiro aproximadamente 5 milhões de pessoas.
Com a independência do Brasil, restaram a Portugal cinco colônias na África. No fim do século 19, Portugal começou a dominar militarmente o interior dessas colônias e incentivou seus imigrantes a se dirigirem para lá, em especial para Angola e Moçambique, buscando explorá-las economicamente.
As especificidades desses três diferentes momentos históricos se refletem nas diversas situações sociolinguísticas em que se encontra a língua portuguesa hoje. Fora do continente europeu, só no Brasil ela é língua primeira da maioria absoluta da população.
Nos países africanos, seu estatuto é, predominantemente, de língua segunda, embora seja crescente o número de falantes que a têm como língua primeira. Na Ásia, há apenas resquícios de sua presença. Mesmo no Timor-Leste é muito baixo o número de seus falantes e não há, praticamente, quem a tenha como língua primeira.
A expansão extraeuropeia de Portugal pôs os portugueses em contato com um sem-número de línguas africanas, asiáticas e americanas, instaurando o complexo problema de como alcançar o mútuo entendimento para garantir as trocas comerciais, as negociações políticas e ainda as práticas da catequese religiosa. Vários foram os caminhos percorridos para enfrentar essa babélica questão (como o uso dos chamados línguas) e múltiplos foram os resultados dos contatos linguísticos que ocorreram, entre os quais merecem destaque o surgimento de línguas crioulas de base portuguesa e a transformação de línguas indígenas americanas em línguas coloniais (as chamadas línguas gerais).
Quanto ao Brasil, a presença portuguesa aqui não se limitou a estabelecer entrepostos comerciais, mas se desenhou como uma colônia de exploração e povoamento que começou a adquirir sua unidade a partir do final do século 17, com a descoberta do ouro em Minas Gerais. Então, fluíram para Minas grandes contingentes populacionais, vindos de várias regiões da colônia e da própria metrópole. Foi a primeira grande movimentação populacional da história da sociedade brasileira, resultando num progressivo redesenho da ocupação do território e do ordenamento social e econômico do conjunto da colônia.
Foram importantes também, para garantir o abastecimento da região mineira, as redes de comércio que se estabeleceram com São Paulo e o sul do território, e com o Nordeste. Essas redes de comércio inter-regionais contribuíram para a progressiva unidade sociopolítica ao Brasil e para a independência da colônia em 1822.
Essa movimentação populacional e as redes de comércio inter-regional tiveram um impacto duradouro na história da língua portuguesa no Brasil. Ocorreu, no século 18, uma verdadeira virada sociolinguística com a língua portuguesa, que entrou numa curva ascendente como língua de uso geral na sociedade brasileira. Portanto, a hegemonia da língua portuguesa na sociedade brasileira não se deu do dia para a noite, nem estava dada já no século 16. Foi antes o resultado de um processo de longa duração intrinsecamente interligado a fatores socioeconômicos.
Até o século 18, a língua portuguesa predominava apenas no Nordeste açucareiro. Em São Paulo, acredita-se que a língua portuguesa era minoritária, vivendo em concorrência com a língua geral paulista, originária da língua tupi falada na região. A vitória do português só se deu da metade para o fim do século 18.
A Amazônia era área densamente multilíngue, em que veio a prevalecer a língua geral amazônica, que só perdeu falantes e cedeu sua hegemonia ao português a partir da segunda metade do século 19, durante o ciclo econômico da borracha, entre 1872-1910. Esse momento econômico atraiu para a região aproximadamente 500 mil nordestinos, todos falantes de português.
O português é hoje uma língua internacional, resultado da expansão marítima de Portugal. É língua oficial de nove países, o que lhe tem proporcionado um aumento constante no número de seus falantes como língua segunda e como língua primeira. Além disso, os fluxos emigratórios de muitos de seus falantes resultaram em sua presença como língua de herança em comunidades espalhadas por vários países do mundo.
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